quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Imagem de Deus e Diversidade (4): sexualidade e homoafetividade na sociedade e na Igreja hoje


Reproduzo abaixo a quarta parte do artigo Imagem de Deus e Diversidade, publicado originalmente no nosso site. Após abordar o papel da Igreja, da Teologia e da Revelação e a impossibilidade de essas instâncias virem a esgotar Deus (na primeira parte); a mediação humana e o caráter histórico da Revelação, na segunda; e a relação entre os fatos e questões contemporâneos e o entendimento humano da Revelação, na terceira; discuto, agora, a atual relação da sociedade e da Igreja com os temas da sexualidade e da homoafetividade.

Dentre todas as questões presentes em nosso contexto cultural contemporâneo que fazem com que nós cristãos perscrutemos a Revelação à procura de um sentido, está a sexualidade.

Não que em si mesma, ela represente um assunto novo. O próprio Jesus nos evangelhos cita, quando fala sobre a questão do divórcio, o texto do livro do Gênesis (Gn 1), que trata da união do homem e da mulher “em uma só carne”. Há nas cartas paulinas inúmeras orientações para casados, viúvos e celibatários.

Mesmo assim, continuo afirmando que a sexualidade é um dos assuntos mais pungentes para a Igreja hoje. Isto porque a sexualidade ganhou, nos últimos tempos, a partir de uma série de acontecimentos um novo status, sendo o evento-síntese o que se acostumou denominar de “Revolução sexual” nas décadas de sessenta e setenta.

Não é meu interesse, e nem poderia fazê-lo se quiser respeitar o objetivo deste texto, elencar tudo o que mudou na compreensão e na vivência da sexualidade nas últimas décadas. Uma particularmente será enfocada, enquanto é uma nova compreensão sobre uma esfera da sexualidade que até então permanecia marginal, e por isso mesmo, condenada pela sociedade como um todo: a homossexualidade.

Também não é possível aqui neste texto trazer à discussão a polêmica sobre a nomenclatura a respeito das pessoas que desejam/amam pessoas do mesmo sexo. Questões atualíssimas como a transitoriedade dos papéis sexuais, a construção social dos gêneros masculino/feminino, e o reforço da visão dualista-excludente heterossexual/homossexual proporcionada também por alguns discursos produzidos por gays, tudo isto e ainda outras questões são muito importantes, mas não há como desenvolvê-las em todas as matizes necessárias neste espaço.

Portanto quando uso o termo gay me atenho a um mínimo de afirmações sem querer resumi-lo a nada de definitivo que rotule qualquer pessoa. Apenas faço uso do termo porque é necessário utilizar algum. Uso-o aqui para indicar tanto homens quanto mulheres homoafetivos.

Escolho este termo porque, na minha concepção, a sua apropriação pelas pessoas homossexuais serve como ícone das mudanças ocorridas nas últimas décadas em relação à homossexualidade. Isto porque, significando originariamente “alegre”, “feliz” ele mostra uma mudança de atitude, já que, sendo encarada oficialmente como uma patologia, a homossexualidade fazia dos infelizes que a “possuíam” desgraçados. Uso-o também porque é o termo pelo qual as pessoas homossexuais se auto-intitularam. Isto significa que alcançaram um espaço. A partir principalmente da década de sessenta, quando os gays começaram a sair à rua para reivindicar direitos, não só a religião ou a medicina tinham algo a dizer sobre as pessoas homossexuais, mas estas mesmas passaram, de diversas formas, a militar por um espaço social reconhecido. Da luta pelos direitos individuais, passou-se à luta por direitos políticos e a grande visibilidade das organizações e movimentos gays em suas reivindicações possibilitou um outro tratamento a respeito da homossexualidade em muitos contextos. Por exemplo, a retirada da homossexualidade da lista de doenças psíquicas da Organização Mundial da Saúde em 1991. É claro que tais mudanças não ocorreram em todos os lugares e há muito ainda a se fazer em todo o mundo. Basta lembrar os alarmantes índices de assassinatos de homossexuais no Brasil, um dos maiores do mundo.

As mudanças são recentes e ocorreram gradativamente. A legislação demora a reconhecer muitos dos direitos básicos dos cidadãos gays. As conquistas, em geral, se iniciam por meio de decisões judiciais que criam jurisprudência para novos casos semelhantes.

Se na sociedade civil o reconhecimento desta maneira de viver a sexualidade (termo entendido aqui de maneira mais ampla possível) se dá lentamente, o que poderíamos esperar da Igreja?

Em nome da sapientíssima prudência, reconhecemos que é preciso não aderir de maneira apressada a tudo o que surge no mundo. É bem verdade que acreditamos na condução divina da história, na inspiração do Espírito presente de muitas formas e maneiras nos homens e nas mulheres. Sabemos também que, neste campo que é o mundo, o joio e o trigo crescem juntos. Mas será que esta atitude cautelosa justifica uma posição retardatária da Igreja na sociedade? Basta lembramos de quantos discursos condenatórios às inovações surgidas no mundo foram realizados por autoridades eclesiásticas. Quando estas “inovações” se dão no campo da moral sexual então, nem se fala. Para muitos católicos/cristãos todas as questões surgidas com a maior liberdade sexual das últimas décadas, resumem-se simplesmente em uma palavra: “sem-vergonhice”.

Um ponto importante – e que para o católico/cristão que não tenha uma formação mais profunda parece ser definitivo – é a condenação das práticas homossexuais presentes na Sagrada Escritura. Sem me deter na questão – que por si não é difícil, desde que se entenda o que de fato se quer afirmar em tais passagens – é preciso dizer que o próprio contexto cultural da Sagrada Escritura é radicalmente diferente do nosso. E que a “homossexualidade” contemporânea traz elementos bastantes diferentes daquela bíblica, já que nos encontramos em um momento tão diferente da história.

Num primeiro momento, isto pode parecer uma tentativa de “enfraquecer” a Palavra de Deus, no sentido de uma distorção a favor de uma ideologia gay. Mas, se assim fosse, este diagnóstico deveria também ser estendido à outras condenações bíblicas que hoje são interpretadas como importantes para aquele contexto histórico-cultural específico tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, como a proibição de comer carne de porco ou o uso obrigatório do véu pelas mulheres nas assembléias, respectivamente.

A cultura bíblica entendia a humanidade como naturalmente heterossexual, de tal modo que a prática homossexual era um desvio, uma perversão, e não uma orientação involuntária nas pessoas. Dir-se-á que a posição da Igreja concorda então com a cosmovisão bíblica e, de fato, assim é. No entanto, os hagiógrafos não tinham acesso aos dados que hoje temos em relação à sexualidade humana. Eles nunca reconheceram a homossexualidade como algo não-escolhido, como já faz a Igreja (CIC 2358), ainda que, apesar disto, não tire todas as conclusões desta premissa, condenando ainda a prática homossexual como pecaminosa.

É absolutamente compreensível a posição bíblica sobre a homossexualidade diante do contexto cultural em que a humanidade vivia, o que não se justifica na posição atual da Igreja sobre o tema. A não ser que na compreensão da doutrina não colaborem em nada as outras áreas do conhecimento humano, ou que a Bíblia não precise ser interpretada no seu contexto originário para se compreender de maneira total a Revelação, ou, em resumo, a não ser que sejamos fundamentalistas.

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